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Porque é que tirar férias pode não ser suficiente para recuperar de burnout?

Chegas às férias completamente exausta.

Nos primeiros dias, quase só queres dormir. Aos poucos, sentes alguma energia regressar. Estás mais tranquila, pensas menos no trabalho e começas finalmente a sentir-te novamente “tu”.

Depois regressas.

Passam alguns dias ou semanas e parece que estás exatamente no mesmo lugar.

Então surge a dúvida:

“Se descansei, porque é que continuo assim?”

Porque o descanso pode ser uma parte importante da recuperação, mas não modifica necessariamente aquilo que estava a produzir e a manter o desgaste.

Pensa numa bateria

Imagina o teu telemóvel com 5% de bateria.

Ativar o modo de poupança de energia pode fazê-lo durar mais algum tempo. Mas não o carrega.

Com o burnout pode acontecer algo semelhante.

Afastar-te temporariamente das exigências profissionais pode reduzir a pressão e permitir alguma recuperação. Mas, se regressares exatamente às mesmas condições que contribuíram para o problema — mesma sobrecarga, ausência de limites, falta de autonomia, conflito de valores ou falta de apoio — é possível que o desgaste reapareça.

Recuperar não é apenas parar de gastar energia

Também precisamos de compreender aquilo que nos permite recuperá-la.

E isto não é igual para todas as pessoas.

Para ti, pode ser estar com alguém de quem gostas.

Para outra pessoa, pode ser passar algum tempo sozinha.

Pode ser atividade física, contacto com a natureza, criatividade, música, leitura, relações significativas ou simplesmente ter momentos em que não existe uma obrigação associada ao que está a fazer.

Experimenta perguntar-te:

“Em que momentos sinto que recupero energia?”

“O que estou a fazer nesses momentos?”

“Que atividades desapareceram da minha vida desde que comecei a sentir-me assim?”

Mas existe uma segunda pergunta igualmente importante

Não basta perceber aquilo que te recarrega.

Precisamos também de identificar o que está constantemente a descarregar a bateria.

Que exigências estão acima dos teus recursos?

Que limites não estão a ser respeitados?

Que responsabilidades estás a assumir?

Quanto controlo tens sobre o teu trabalho?

Existe apoio?

Consegues desligar quando o horário termina?

Há alguma coisa no teu contexto profissional que precisa de mudar?

Esta distinção é importante porque o burnout está relacionado com stress crónico no contexto ocupacional. Por isso, a prevenção e recuperação não devem colocar toda a responsabilidade sobre a pessoa. Em muitos casos, é necessário intervir também nas condições e organização do trabalho.

Descansar, reabastecer e reduzir aquilo que te drena

Podemos pensar na recuperação através destas três dimensões:

  • Descansar: permitir recuperação física e mental.
  • Reabastecer: voltar a aproximar-te de atividades, pessoas e experiências que proporcionam prazer, significado ou vitalidade.
  • Reduzir o desgaste: identificar e, sempre que possível, modificar fatores que continuam a consumir os teus recursos.

É esta última dimensão que facilmente esquecemos.

Porque não podemos compensar indefinidamente uma semana insustentável com um fim de semana de descanso.

Recuperar também pode significar voltar a estar presente

Quando fizeres algo que te faz bem, observa se consegues realmente estar nessa experiência.

Sem transformá-la numa obrigação.

Sem avaliar constantemente se já estás melhor.

Sem pensar no momento em que vai terminar.

Tenta reparar no que está a acontecer enquanto acontece: aquilo que vês, sentes, ouves e aprecias naquele momento.

Não precisas de aproveitar cada segundo nem de transformar o lazer numa nova meta de desempenho.

A recuperação é um processo de reconstrução de equilíbrio entre aquilo que a vida te exige e os recursos que tens disponíveis para responder.