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Burnout: quando o problema não é apenas trabalhar demasiado

Quando pensamos em burnout, uma das primeiras explicações que surge é:

“Estou a trabalhar demasiado.”

E, de facto, cargas de trabalho excessivas e dias de trabalho muito longos podem constituir importantes fatores de risco.

Mas reduzir o burnout apenas ao número de horas trabalhadas seria demasiado simples.

Duas pessoas podem trabalhar o mesmo número de horas e viver experiências profissionais muito diferentes.

O contexto em que trabalhas também importa

Imagina trabalhar durante meses com elevada exigência, pouca autonomia e escasso apoio.

Ou investir muito no teu trabalho sem receber reconhecimento.

Talvez sintas que não tens oportunidades de crescimento, que as tuas responsabilidades não são claras ou que existe uma distância cada vez maior entre aquilo que valorizas e aquilo que o teu trabalho te exige.

Todos estes fatores podem ter impacto.

Entre os riscos psicossociais associados à saúde mental no trabalho encontram-se, por exemplo, cargas de trabalho excessivas, horários longos ou inflexíveis, pouco controlo sobre o trabalho, apoio limitado, insegurança laboral, papéis pouco claros e poucas oportunidades de desenvolvimento profissional.

Por isso, talvez uma pergunta mais útil do que “Quantas horas trabalho?” seja:

“Como estou a viver as horas em que trabalho?”

Quando esforço e recompensa deixam de estar equilibrados

Reconhecimento não significa precisar constantemente de elogios.

Significa também perceber que aquilo que fazemos é visto, que existe justiça, respeito, possibilidade de desenvolvimento e alguma correspondência entre o investimento que fazemos e aquilo que recebemos do contexto profissional.

Quando uma pessoa se esforça continuamente e sente que nada muda, pode começar a surgir desmotivação, distanciamento ou uma sensação de ineficácia.

Da mesma forma, trabalhar num contexto que entra constantemente em conflito com valores pessoais pode gerar desgaste.

A mudança também precisa de acontecer no trabalho

Quando o problema está relacionado com condições laborais, a resposta não pode ser exclusivamente individual.

Dormir melhor, praticar exercício, estabelecer limites ou desenvolver estratégias de regulação emocional podem ser importantes, mas não tornam saudável um contexto de trabalho persistentemente prejudicial.

Por vezes, recuperar implica também mudanças organizacionais: carga e organização do trabalho, horários, autonomia, apoio, comunicação, relações profissionais ou condições de trabalho.

Algumas perguntas para refletires

Em vez de te perguntares apenas se trabalhas demasiado, experimenta explorar:

“O meu trabalho permite-me recuperar?”

“Sinto que tenho algum controlo sobre aquilo que faço?”

“Sinto-me apoiada?”

“O esforço que faço é reconhecido?”

“Existe espaço para crescer?”

“O meu trabalho continua alinhado com aquilo que considero importante?”

“Que parte desta situação depende de mim e que parte pertence ao contexto em que estou inserida?”

Nem sempre temos poder para mudar imediatamente as nossas circunstâncias profissionais. Mas compreender aquilo que está a contribuir para o desgaste é um passo importante para deixarmos de interpretar a exaustão simplesmente como uma falha individual.